O impostor
Luis Fernando Verissimo
Dalva e Moacir eram jovens e se amavam, mas os pais dela proibiram o romance e os dois decidiram se matar. Tomaram inseticida. Primeiro a Dalva, depois o Moacir. Mas o Moacir não morreu. Os familiares da Dalva tentaram invadir o hospital para acabar de matar o Moacir, que depois da alta teve que fugir da cidade. Voltou dez anos depois, e a primeira coisa que fez foi ir ao cemitério procurar o túmulo de Dalva. Não foi difícil encontrar. Havia uma multidão em volta do túmulo. Segundo o zelador do cemitério, era assim todos os dias. Vinha gente de longe para visitar o túmulo.
- Porquê?
- É uma história famosa. Um pacto suicida. Faz anos.
- Ela e o namorado?
- É. Mas ele não morreu. Continua aí.
- Onde?
- Na cidade. Andou fora uns tempos, depois voltou. O senhor não é daqui?
- Sou. Não. Era.
A cidade não mudara nada, mas Moacir não encontrou nenhum conhecido. Entrou num bar e pediu um guaraná. A moça atrás do balcão serviu o guaraná sem olhar para ele. Estava olhando para um moço sentado atrás de uma mesa, no fundo do bar. Um moço com um ar sombrio, a barba por fazer. A moça sacudiu a cabeça e disse: “Coitado”.
- Quem é? - perguntou Moacir.
- Não conhece? É uma história famosa. Um pacto suicida. Ela morreu, ele sobreviveu. Desde então ficou assim. Dá uma pena.
- Como é o nome dele?
- Moacir.
Naquela noite, Moacir foi a outro bar. Não era do seu tempo. Muito movimento, a garotada na calçada, carros estacionados na frente com as portas abertas e o som em alto volume. Dentro do bar, Moacir avistou o falso Moacir. Ar sombrio, o cabelo caído na testa, um copo de uísque sobre a mesa à frente. Era o centro das atenções. Obviamente, o herói trágico da cidade.
- Olha ele lá - disse uma moça ao lado de Moacir. - Eu fico toda arrepiada.
Eram duas adolescentes de pé na calçada, cerveja na mão. Estavam com uma turma.
- Porquê? - quis saber Moacir.
- Já pensou? Dá uma vontade de ir lá consolar, não dá?
- Parece filme - disse a outra, que também ficava toda arrepiada só de olhar o coitado.
Moacir entrou no bar e abriu caminho no meio da multidão até a mesa do impostor. Puxou-o pela frente do suéter preto de gola rolê e gritou:
- Seu pulha! Seu verme!
Aos que apartaram, Moacir disse, depois, que ficara indignado. Estivera no túmulo da Dalva aquela tarde e não aguentara ver aquele pulha, aquele verme, sentado ali, tomando uísque. Era o responsável pela morte da santa. Devia estar era tomando inseticida, isso sim.
Quando saiu do bar, em meio a reprovação geral, Moacir passou pelas duas adolescentes que o olharam com desdém.
- Eu, hein? - disse uma delas.
Percepção
Pelé reinou quando já havia videoteipe. Suas façanhas estão bem documentados. Você não precisa recorrer à literatura para contar às crianças como era o seu futebol. As façanhas de gente como Ademir e Zizinho ficaram na memória dos velhos e em filmes desbotados, nenhuma das duas coisas muito confiáveis. (Gosto de espantar as pessoas dizendo que ainda vi jogar o Domingos da Guia, mas me apresso a esclarecer que eu era garoto e ele estava em fim de carreira, jogando no Corinthians quase que só como uma curiosidade, e não tenho a menor lembrança do que ele fez em campo. Antes que pensem que votei no Brigadeiro). O grande mérito de Pelé é que ele resiste ao videoteipe completo. Se tivesse ficado em filme, só os seus grandes momentos estariam registrados. O videoteipe completo traz tudo: o passe errado, o tombo sentado, a chuteira desamarrada. E Pelé resiste aos detalhes. Era bom até amarrando a chuteira.
Com o futebol aconteceu um pouco do que aconteceu com a guerra: quanto mais realista a sua reprodução, mais difícil romanceá-la. Quando só se via cenas de guerra em quadros épicos em que até os cadáveres colaboravam na composição, ela podia ser glorificada sem contestações, salvo as estéticas. Fora as gravuras de Goya, não se conhece um quadro sobre a guerra, antes da invenção da fotografia, que não a exaltasse. A fotografia primitiva roubou da guerra a cor e a proporção e acrescentou a sujeira, o filme dinamizou o horror e o tape fez zoom no detalhe. Ainda há quem ame a guerra, mas nunca mais a percepção dela foi a mesma.
No futebol, além da dificuldade em julgar jogadores antigos pelas precárias imagens que ficaram deles e pelo que contam - com o inevitável toque épico do exagero - os que os viram jogar, há outras questões que complicam as comparações. Esquemas diferentes, preparo físico, etc. Algumas das grandes reputações do passado sobreviveriam aos cinco no meio e à marcação no campo todo de hoje? Pelé pegou o começo do futebol sem espaço. Não só se sobreviveu como deixou o exemplo de como sobreviver no sufoco. A extrema objetividade (nunca se viu um drible do Pelé apenas pela satisfação do drible, era sempre um espaço conquistado), a antecipação da jogada seguinte antes mesmo de a jogada presente começar, a solidariedade, a simplicidade. Pelé só não dá a receita porque gênio não tem fórmula.
Domingo, 21 de setembro de 2003.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.